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Um assalto ao processo de paz em GazaUm assalto ao processo de paz"O alvo de Israel foi a linha de produção das indústrias em Gaza" (Federação Palestina das Indústrias, 25/1/2009)
Donald Macintyre: The Independent, UK, 25/1/2009
O exército de Israel atacou, com bombardeio aéreo massivo, morteiros, tanques e blindados de todo tipo toda a capacidade de produção de algumas das mais importantes fábricas e instalações industriais na Faixa de Gaza, durante os 22 dias de guerra em Gaza. Os ataques – como os que destruíram pelo menos 4.000 residências e tiveram efeito de terremoto em quarteirões inteiros e produziram mais de 50 mil desabrigados – destruíram ou danificaram seriamente 219 fábricas, informam industriais palestinos. Lideranças de empresários e industriais, em Gaza – que sempre procuraram manter-se afastados dos vários partidos políticos locais – dizem que, nesses ataques, foram destruídos os 3% das indústrias que ainda conseguiam operar depois de 18 meses de bloqueio econômico decretado por Israel contra Gaza. Chris Gunness, principal porta-voz da Agência de Socorro Humanitário da ONU, disse que a destruição foi total e visou a "infra-estrutura econômica civil." Foi "um ataque direto contra o processo de paz, porque a estabilidade econômica é componente essencial de qualquer paz durável". Ao mesmo tempo, outro alvo dos ataques israelenses parece ter sido as já quase inexistentes possibilidades de reconstruir Gaza em prazo médio ou longo. Os ataques tampouco contribuíram para melhorar as difíceis condições em que a população tem de sobreviver. Várias organizações humanitárias inglesas têm tentado contribuir para ajudar aquelas populações – esforço do qual a BBC parece não desejar participar. Enquanto isso, a Agência de Socorro Humanitário da ONU continua a pedir doações, tentando reunir os $345m para os primeiros reparos em casas que ainda estão em pé, embora muito danificadas. Dentre as fábricas destruídas estão Alweyda (a principal empresa de processamento de alimentos e a única que ainda operava em Gaza antes dos ataques israelenses de dezembro-janeiro); Abu Eida (a maior produtora de concreto para fabricação de blocos para construção e que foi totalmente destruída); e o Moinho Al Badr, empresa com 89 anos de existência, dona dos maiores armazéns para estocagem de farinha, em toda a Faixa. Os proprietários dessas três empresas disseram ontem que há anos trabalhavam em parceria com empresas e fornecedores israelenses. Yaser Alweyda, engenheiro, proprietário e diretor de operações da empresa de processamento de alimentos que foi destruída, estima em 22 milhões o custo para reparar a fábrica. E acusou Israel de ter deliberadamente atacado "a já tão fraca economia Palestina". Acrescentou: "Estão fazendo o que fazem para garantir que jamais venha a existir um Estado da Palestina." Tawfiq Abu Eida, proprietário da fábrica de concreto, contou que, antes dos ataques israelenses, estava organizando-se para fornecer concreto para as obras do serviço público de esgotos, em Beit Lahiya – projeto-chave de Tony Blair, enviado especial da União Européia ao Oriente Médio. "Os ataques por ar e por terra foram mais um movimento do bloqueio, disse ele." Para Amr Hamad, gerente executivo da Federação Palestina das Indústrias, "O que os israelenses não conseguiram com o bloqueio econômico, conseguiram agora com os blindados e os bombardeios." E acrescentou: "Os empresários da Palestina não têm contato algun com Hamás algum. Somos empresários pragmáticos e sabemos a importância de haver aqui uma paz estável. Também sabemos que Israel é parceiro necessário nos nossos negócios", disse Hamad. [...] Na empresa Moinhos Al Badr, em Sudaniya, norte da cidade de Gaza, o proprietário, Rashed Hamada, 55, disse que sua empresa operou até o dia em que foi atacada, 10 de janeiro. Negou que a fábrica, que permanece trancada durante a noite e tem guarda de vigilância dia e noite, tivesse sido usada por resistentes do Hamás. "É perfeitamente evidente que o alvo foi a própria linha de produção." "Foi como se o pai do comandante fosse dono de um moinho de produção de farinha", comentou com ironia. "Atiraram exatamente nos pontos-chave, para fazer parar a producão. E continuou: "Os israelenses, antes, insistiam para que expandíssemos a fábrica. Agora, destruíram tudo." O Sr. Alweyda – proprietário da principal empresa de processamento de alimentos da Palestina –, parado ao lado de caminhões refrigerados incinerados e das ruínas do que foi sua fábrica, localizada, para garantir acesso fácil até Israel – entre a área leste da cidade de Gaza, no distrito de Shajaia, e a fronteira, a 650 metros dali –, disse que, além de toda a linha de produção, foram queimados 26 caminhões da empresa. A Alweyda é a única distribuidora, para Gaza, da fábrica israelense Tnuva, que produz leite e derivados; desde o início da guerra, tentou manter, pelo menos, a produção de biscoitos. [...] Para Amr Hamad, o objetivo dos ataques às fábricas foi tornar a economia de Gaza totalmente dependente de Israel e tentar fazer com que a população, atormentada pela falta até de comida, pressione o Hamás para que aceite as condições que Israel quer impor para reabrir as passagens de fronteira. Dentre outras exigências, Israel quer que a Autoridade Palestina controle as fronteiras e exige a libertação do soldado Gilad Shalit, capturado em combate há 2 anos e meio, pelo Hamás e outros militantes.
... Klaus Nomi - The cold song
E nosso amor tornou-se impossível: permanecerá vivo não como gesto imprevisível, mas silêncio impertinente. Nova arma de microondas sonoras
PROJETO NO SENADO INVIABILIZARÁ REDES ABERTAS
BANNERS CONTRA O PROJETO DO SENADOR AZEREDO
para esboroar o que os olhos vêem
Em cana
Uma organização internacional de direitos humanos alertou esta semana para o fato de que o número de homens e mulheres atrás das grades nos Estados Unidos subiu para 2,3 milhões de pessoas. A organização humanitária também afirmou que os negros americanos possuem 12 vezes mais chances de ir em cana e constituem o alvo preferencial da polícia norte-americana. Para além das informações estatísticas, aqui do lado debaixo da América, os presos também são quase todos pretos, jovens, nordestinos, punks, putas, loucos, bêbados. Diante de tanta prisão, ainda pode-se ouvir o insuportável silêncio sorridente que vai de São Paulo à Nova Iorque.
http://www.nu-sol.org/flecheira/pdf/flecheira67.pdf
Entrevista com Naomi KleinA contra-revolução do neoliberalismo, um novo livro de Naomi Klein
Não houve nenhuma revolta da elite, mas uma verdadeira e própria contra-revolução
Para Naomi Klein, autora de Shock economy, seu novo livro, a privatização dos bens comuns e dos serviços sociais será mais gradual do que no passado, enquanto será dedicada maior atenção ao conflito de interesses. Mas, é consolador afirmar que estamos assistindo ao declínio do neoliberalismo.
Eis a entrevista.
Nos anos cinqüenta e sessenta, Milton Friedman era considerado um nostálgico de uma economia de mercado que não mais existia. O pensamento econômico dominante era de tipo keynesiano. As teses da escola de Chicago eram consideradas a expressão de um extremismo ideológico a favor do livre mercado fora da realidade. A economia estadunidense era próspera graças à intervenção estatal e à "colaboração" entre sindicatos e empresas. Tudo parecia andar numa outra direção daquela que sustentava Friedman.
Você sustenta que a insegurança e os desastres ambientais são usados como ardil para impor políticas neoliberais. Não crê, no entanto, que precisamente a insegurança possa tornar-se o impulso para um reforço do welfare state? No fundo, o estado social nasce também para resolver o "choque coletivo" que atingira os Estados Unidos e a Europa nos anos trinta e quarenta?
Os choques coletivos podem ser usados para introduzir políticas neoliberais, se os homens e as mulheres estão desorientados, sós, ou seja, se sentem sua condição como precária. Na Itália estão em ação movimentos sociais que se batem contra a precariedade das relações de trabalho, pelos direitos dos migrantes, contra a guerra. O problema é se conseguem dar continuidade à sua ação, porque somente um reforço pode ajudar na resistência às políticas neoliberais.
Até agora, a presença dos movimentos sociais criou as condições afim de que a chantagem fosse recusada da parte da população. Consideremos a precariedade das relações de trabalho. Há movimentos que se batem contra ela e pela extensão, também aos precários, dos direitos do trabalho. Até agora conseguiram organizar uma parte do trabalho precário. O passo seguinte é de envolver sempre mais homens e mulheres para poder enfraquecer a chantagem a que estão submetidos muitos trabalhadores e trabalhadoras. Creio, pois, que os movimentos devam dar-se uma organização estável, menos efêmera, para reforçar sua ação.
Nas minhas viagens de trabalho encontro homens e mulheres que sentem muitíssimo esta urgência política de dar continuidade e força à sua ação política. Talvez possam pecar por otimismo, mas me parece que muitos movimentos estão se movendo nesta direção.
No seu livro você escreve que o neoliberalismo se caracteriza não tanto pela ocupação do Estado mas pela privatização de algumas funções que lhe competem, da defesa nacional à saúde e à formação escolar. Houve, depois, o escândalo da sociedade de "contractors" ["empreiteiros"] Blackwater no Iraque e muitos analistas denunciaram como louca a privatização da defesa nacional. Estamos assistindo ao declínio do neoliberalismo? Ou são apenas sacudidas de ajustamento?
Mal as águas começaram a se retirar e grande parte do establishment liberal viu no furacão a mão divina que permitia expulsar os habitantes pobres e os afro-americanos, para deixar espaço às empresas privadas. Não creio, pois, que o neoliberalismo tenha chegado ao fim da linha. É óbvio que o escândalo da Blackwaater levanta alguns problemas para os neoliberais. Mas, na mídia dominante não é criticado o modelo neoliberal, e sim as ações de uma só empresa, neste caso a Blackwater. No final das contas, é invocada maior vigilância sobre as atividades de uma empresa privada que desenvolve uma função estatal, pública.
Na Itália há muito interesse pelas primárias do partido democrático nos Estados Unidos e na competição entre Hilary Clinton e Barak Obama. Podem os movimentos sociais condicionar os resultados das primárias no partido democrático?
A política estadunidense desde sempre condicionou a italiana. E depois, você vive num observatório privilegiado que é o Canadá. No entanto, o que me interessa entender é que relação - de conflito, de cooptação - os movimentos sociais nos Estados Unidos querem entreter com o poder político e com a política institucional...
Refiro-me ao primeiro Fórum Social estadunidense em Atlanta. Centenas de grupos, associações, milhares de ativistas se encontraram para conhecer-se e discutir sobre o que fazer.
Os poucos jornalistas que foram a Atlanta ficaram maravilhados, porque viam homens e mulheres que discutiam sobre pobreza, marginalização, direitos dos migrantes, falta de trabalho, direitos à saúde e à instrução pública, ou pacifismo, propondo iniciativas de luta e alternativas praticáveis contra o neoliberalismo, sem esperar que o partido democrático lhes dê atenção.
Em outras palavras, penso que os movimentos sociais devem desenvolver sua própria iniciativa, organizar-se, desenvolver uma espécie de contrapoder, sem esperar a existência de um candidato que prometa representar as suas propostas o que seu ponto de vista entre na agenda política de qualquer partido.
Os movimentos sociais, pelo menos aqui na Europa, não gozam de boa saúde. Houve importantes mobilizações contra a precariedade na França e na Itália. O movimento pacifista inglês continuou a levar à praça centenas de milhares de pessoas. No entanto, são inegáveis as dificuldades dos movimentos sociais. Não crê que estas dificuldades derivem também do fato de que o movimento dos movimentos, para usar uma expressão que é muito cara a você, não corre o risco de desenvolver uma leitura crítica do mundo atual e conseqüentemente desenvolver formas de luta e de organização adequadas?
O problema é entender como o mudou. Houve a guerra no Afeganistão e depois no Iraque. Guantânamo . As crises econômicas. Mas, ainda não conseguimos colher o pleno sentido daquilo que aconteceu após as Twin Towers. Será necessário tempo para entendê-lo. Espero contribuir, como muitos outros, para entendê-lo.
Agrada-me pensar que este livro seja uma pequena contribuição para entender como mudou o capitalismo.
http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=10649
LivroQuerid@s,
UEBA!!!! Eis o link: http://www.4shared.com/account/file/46483213/8ca2ab19/ABomba.html Em breve irá para a pasta LITERATURA.
Há 40 anos - o Maio de 68Algumas frases que ocuparam os muros de Paris:
"Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo"
"Abaixo os jornalistas e todos os que os querem manipular"
"Sejam realistas, exijam o impossível!"
"A imaginação no poder"
"É proibido proibir"
"As paredes têm ouvidos, seus ouvidos têm paredes"
"Se queres ser feliz, prende o teu proprietário"
"O patrão precisa de ti, tu não precisas dele"
"Todo poder abusa. O poder absoluto abusa absolutamente"
"O sonho é realidade"
"Todo poder aos conselhos operários (um enraivecido)
"O poder tinha as universidades, os estudantes tomaram-nas.
O poder tinha as fábricas, os trabalhadores tomaram-nas.
O poder tinha os meios de comunicação, os jornalistas tomaram-na.
O poder tem o poder, tomem-no!"
"Viva o efêmero"
"Nós somos todos judeus alemães"
"A política passa-se nas ruas"
"Viva o poder dos conselhos operários estendido a todos os aspectos da vida"
"Trabalhador: tu tens 25 anos, mas o teu sindicato é do outro século"
"Todo reformismo se caracteriza pela utopia da sua estratégia,
e pelo oportunismo da sua tática"
"Quando a Assembléia Nacional se transforma em um teatro burguês,
todos os teatros da burguesia devem se transformar em Assembléias Nacionais"
"Juventude Marxista Pessimista"
"Acabareis todos por morrer de conforto"
"Revolução, eu te amo"
"A revolução deve ser feita nos homens, antes de ser feita nas coisas"
"Abaixo o Estado" "Um só fim de semana não-revolucionário
é infinitamente mais sangrento que um mês de revolução permanente"
"A revolução não é a dos comitês, mas, antes de tudo, a vossa.
"Quanto mais amor faço, mais vontade tenho de fazer a revolução.
"Abaixo a Universidade"
"Professores, sois tão velhos quanto a vossa cultura,
o vosso modernismo nada mais é que a modernização da polícia,
a cultura está em migalhas"
"A sociedade nova deve ser fundada
sobre a ausência de qualquer egoísmo e qualquer egolatria.
O nosso caminho será uma longa marcha de fraternidade"
"Tu, camarada, tu, que eu desconhecia por detrás das turbulências,
tu, amordaçado, amedrontado, asfixiado, vem, fala conosco"
"O sagrado, eis o inimigo"
"Abaixo a sociedade espetacular mercantil"
"Os limites impostos ao prazer excitam o prazer de viver sem limites"
"Em caso de Revolução, quebre o vidro"
Coletivo Baderna - Solidarity - MAIO DE 68 http://www.4shared.com/account/file/22348939/6fc0b848/Solidarity_-_Maio_de_68.html [post por Scristina]
O trabalho - Toni Negri
O TRABALHO1
Toni Negri2
Texto na íntegra: http://www.4shared.com/account/file/45560788/9b48d384/o_trabalho_-_Toni_Negri.html
_______________________ Notas da tradução1. Fonte: << http://perso.wanadoo.fr/marxiens/politic/revenus/saga.htm >> 2. Traduzido por: Cecília Pires e Celso Candido, professores de Filosofia UNISINOS. 3. Ver: << http://www.lyber-eclat.net/lyber/marazzi/place_des_chaussettes.html >>
[Post por Marcel]
Apocalipse
Prezad@s: "É no prolongamento da potência da máquina que se encontra, em nossa sociedade, a potência humana perdida. É nele que se livra daquele ser coisificado, castrado, diminuído, constrangido a todo instante. Em última análise, trata-se da busca do orgasmo perdido. (Não nos enganemos, os publicitários sabem o que fazem.) Mas, no fim, o motor a combustão, o acelerador e a pista não passam de intermediários entre a impotência ao prazer e o prazer impotente".
Comentário: Beleza, amig@! Se já tiver feito o upload, deixe um comentário sobre o local (em qual pasta o arquivo está, ok?). Se ainda não o fez, daria para fazê-lo na pasta "AA NOVOS UPLOADS"? (Para quem está chegando... clique no primeiro link da LISTA DE BLOGS, para acessar a BIBLIOTECA DO COOPERAÇÃO SEM MANDO (4shared). Abraços daqui.
Comentário: A arquivo do livro "Apocalipse Motorizado: a tirania do automóvel em um planeta poluído" está disponibilizado na pasta "AA novos uploads".
Instintos & instituições"O homem não tem instintos, ele faz instituições.O homem é um animal em vias de despojar-se da espécie.Do mesmo modo, o instinto traduziria as urgências do animal e a instituição,as exigências do homem:no homem, a urgência da fome devém reivindicação de ter pão.Finalmente, no seu ponto mais agudo,o problema do instinto e da instituição será apreendido,não nas “sociedades” animais,mas nas relações entre animal e homem,quando as exigências do homem incidem sobre o animal,integrando-o em instituições (totemismo e domesticação),quando as urgências do animal encontram o homem,seja para escapar ou atacá-lo, seja para conseguir alimento e proteção"
Gilles Deleuze, Ilha deserta, p.23
[post por VKA]
Economia e Meio Ambiente
"Estamos agindo como os habitantes da Ilha de Páscoa, a única diferença é que eles cortaram a última árvore e perderam o solo e a comida numa ilha. Nós estamos fazendo isso globalmente."
Em entrevista para este boletim (http://www.ibps.com.br/index.asp?idnoticia=2821), o autor do livro ‘Ecoeconomia – Uma nova abordagem’, Hugo Penteado, fala sobre o modelo econômico vigente e sua relação com o meio ambiente, comentando a teoria econômica e seus mitos. Mais que tudo, Hugo mostra que não adianta apenas substituir nossas tecnologias de produção, o que precisamos substituir fundamentalmente é nossa maneira de vida, eliminando hábitos e comportamentos oriundos de um sistema que nada mais fez senão nos proporcionar miséria, frustração, saturação e infelicidade, e que segue nos conduzindo cada vez mais rápido para a destruição. A questão é: quanto ainda vai nos custar continuarmos vestindo um modelo que não se ajusta aos nossos pés?
IBPS: Qual seu pensamento sobre a relação economia - produção - meio ambiente, ou - como você refere no livro, a relação “agentes econômicos, seus sistemas econômicos e a natureza”?
HUGO PENTEADO: Os economistas agem como se a natureza não fosse uma variável relevante. Todos os textos que abordam o tema desmistificam a preocupação com a questão ambiental, com a restrição ao crescimento de um planeta finito, e pior, chegam a ponto de abraçar trabalhos “estatísticos” (sobre os quais a dúvida deveria ser maior que a certeza) que declaram ser o aquecimento global um não evento para as economias. Essa certeza dos economistas é assustadora. A teoria econômica, independentemente de sua corrente, possui três mitos:
1) Mito Mecanicista: Os processos econômicos são explicados com as leis da mecânica e por essas leis o sistema econômico é considerado neutro para o meio ambiente. Todos os processos econômicos mecanicistas são reversíveis, previsíveis e incapazes de gerar mudanças qualitativas no sistema. Ou seja, podemos passar um trator na Amazônia, basta dar marcha-ré que nada aconteceu. Essa crença não só é inútil, bem como por uma série de perguntas sem resposta, os economistas que derivaram suas teorias da mecânica, não foram capazes de adaptá-las para o avanço da Física que mudou a forma com nós vemos a realidade. Na verdade, os processos físicos econômicos geram mudanças qualitativas definitivas no sistema. Está na hora de reconhecer isso, pois são esses processos que estão por trás da destruição acelerada dos ecossistemas e da maior extinção da vida na Terra dos últimos 65 milhões de anos.
2) Mito Tecnológico: Embora a tecnologia dependa de outras ciências que não a Economia, os economistas utilizam os avanços tecnológicos para concluir que o meio ambiente é inesgotável. Os ganhos de eficiência são risíveis quando comparamos com o tamanho da escala produtiva atual, pela qual em um ano produzimos mais que em 100 anos e não paramos de crescer esses fluxos, ignorando veementemente os estoques acumulativos de bens, serviços e pessoas sobre a Terra. Se reduzirmos bastante o consumo dos recursos naturais por unidade de produto, ao multiplicar pelo total do produto vamos ver como o consumo absoluto dos recursos cresceu exponencialmente, causando devastação global. Estamos agindo como os habitantes da Ilha de Páscoa, a única diferença é que eles cortaram a última árvore e perderam o solo e a comida numa ilha. Nós estamos fazendo isso globalmente.
3) Mito Neoliberal: Se os dois primeiros mitos tornam possível acreditar no crescimento eterno de estruturas materiais e populações, o terceiro mito justifica esse objetivo. Crescer por crescer não tem apelo algum, mas dizer que só o crescimento produz benesses sociais acaba justificando todas as tragédias que estamos produzindo. É um cego guiando outro cego, pois não existe a menor relação entre crescimento econômico e desenvolvimento, como não existe a menor relação entre crescimento econômico e bem estar ou geração de empregos. Está na hora de parar de acreditar nas estatísticas e encarar as conseqüências inequívocas do crescimento: concentração de riqueza, destruição dos empregos e da natureza. A concentração de riqueza, que hoje no mundo todo está historicamente elevada, também impede que boas decisões políticas sejam tomadas. Os mitos fazem com que os economistas só analisem a economia em termos de fluxos e taxas percentuais, não olham o consumo absoluto, o estoque das estruturas, como casas e carros, nem o impacto ambiental dessa acumulação. Também não olham o crescimento populacional contínuo, de mais 200.000 pessoas vivendo na Terra por dia, olham só a taxa de crescimento percentual da população. Está em queda comemoram. O mesmo vale para o crescimento do PIB. Os mitos fazem a gente olhar para o que menos interessa. E sem nos preocuparmos com os reais impactos para a sociedade e a questão ambiental seríssima que estamos vivendo. Um dia, ninguém sabe quando, esse pesadelo terá um custo muito alto e para todos, sem exceção.
IBPS: De 1992 para cá, as questões ambientais vêm caminhando a passos muito lentos, muito pouca coisa pode ser vista na prática daquilo que foi decidido e acertado na tentativa de reverter o grave quadro da problemática ambiental. Sem considerar as dificuldades oriundas das deficiências do nosso sistema econômico e político, o quê, na sua visão, está sendo o maior entrave para a evolução das iniciativas ambientais?
HP: Existem vários entraves para as iniciativas ambientais. O primeiro deles está na teoria econômica incapaz de reconhecer o problema, pois parte do princípio irreal que o sistema econômico é neutro para o meio ambiente e o meio ambiente é inesgotável. O segundo entrave está na falta da evidência de um colapso ambiental definitivo. O argumento dos céticos é que podemos ser ricos como os Estados Unidos, afinal, trata-se de um país rico e limpo. Em primeiro lugar os países ricos como os Estados Unidos e a Europa não são limpos. De acordo com a agência ambiental norte-americana metade dos rios, lagos e zonas estuárias daquele país estão contaminados (com mercúrio, entre outras coisas) e poluídos. Sem falar na questão da destruição de florestas: eles destruíram a quase totalidade das suas florestas. Criaram processos industriais que agrediram o meio ambiente e a sociedade de forma brutal. Mas vamos esquecer isso, vamos fazer de conta que é verdade que os Estados Unidos são um país limpo e ambientalmente equilibrado. Se isso é verdade, podemos fechar todos os portos dos Estados Unidos para os recursos da natureza que ele importa e nada acontecerá. Na verdade, os Estados Unidos não vivem um colapso ambiental e a China idem, por causa do comércio global. Os habitantes dessa ‘Ilha de Páscoa maior’ estão sendo capazes de, após derrubar a última árvore, continuar derrubando a de outros países. O comércio global, que não dá a menor importância para custos ambientais e sociais, é um mecanismo que impede que países grandes sugadores de recursos da Terra entrem em colapso. Esses países, ao importarem produtos do Brasil, exportam para cá a sua própria insustentabilidade ambiental, e os economistas comemoram com os dólares dessas exportações, que geram pouquíssimos empregos e pouco resultado social, além de devastar nosso meio ambiente. Nada está sendo cobrado por transformar de forma crescente a floresta Amazônica em uma monocultura. Na verdade isso é aplaudido pelos economistas e pelos mercados financeiros. O mais assustador é que a partir de um determinado ponto a floresta irá se destruir sozinha, automaticamente, e sem a floresta a região sudeste do Brasil, onde estamos, ficará sem água. Ou seja, estamos indo imprudentemente até o limite desse sistema surrealista e isso é, como eu disse, comemorado.
Finalmente, os economistas estão convencidos em não se preocupar com o meio ambiente, como se não precisássemos dele para nada, por três motivos: restrição ao fluxo migratório de populações (os Estados Unidos jamais aceitariam receber 60 milhões de brasileiros miseráveis), comércio global (o que eu não tenho mais no meio ambiente, importo devastando outras regiões) e pobreza mundial (dois terços da humanidade vivem em miséria ou pobreza absoluta, qualquer elevação no seu padrão material colocará em xeque a crença infantil dos economistas sobre a inesgotabilidade do planeta).
IBPS: No seu entendimento, segundo consta no livro, de nada adiantará adotar tecnologias ecoeficientes, métodos de reaproveitamento das matérias-primas, entre outras alternativas, se não houver, junto a isso, uma mudança total de valores, hábitos, padrões e costumes. Nesse contexto, a produção mais limpa não representa uma ferramenta fundamental para a educação e principalmente para a implementação de uma cultura de racionalização?
HP: A ecoeficiência faz uso dos mesmos mitos da teoria econômica tradicional, não reconhecendo limites nem os erros do atual sistema. É um ajuste nos sistemas de produção e consumo, com vistas a aumentar os lucros, ou seja, é visto como oportunidade de ganhos e não de revisão dos erros atuais. Trocando em palavras, o limite para produzir carros ecoeficientes ou não sempre existirá, não vou poder produzir três trilhões de carros só porque eles são ecoeficientes, isso é um absurdo, imaginar que temos que fazer crescer a produção de todos os bens sem esbarrar em limites. Um carro produzido não irá para a copa de uma árvore, requer asfaltamento da terra, que deixa de ser um reservatório de biodiversidade, deixa de ser usada para agricultura. Num espaço finito como a Terra, o uso para uma determinada finalidade é concorrencial com os demais usos. Esse erro é assustador, para dizer o mínimo. No entanto, apesar da ecoeficiência ser um arremate de uma teoria totalmente equivocada e apesar dela não ser suficiente para resolver o problema, pelo menos da forma como precisamos para conciliar a nossa sobrevivência econômica com a da nossa espécie animal, ela mesmo assim é fundamental e deve ser perseguida a todo custo. É uma questão de lógica: se ela não é suficiente, ela é então ainda mais importante, por ser educativa, por dar mais tempo para reconhecermos os absurdos do sistema atual.
IBPS: Gostaria que você comentasse o capítulo 6 do seu livro, intitulado ‘Ecoeconomia como visão alternativa’
HP: A Ecoeconomia parte de uma revisão total dos valores vigentes, não apenas econômicos, mas humanos. Nós temos que entender que fazermos parte de um corpo imortal chamado espécie humana e que esse corpo depende de uma série de elos com a natureza, sem os quais, irá perecer. Uma vez entendido que se trata de um corpo imortal, cujas ações repercutirão sobre as gerações futuras, precisamos remodelar nosso sistema de valores em busca do equilíbrio. O atual consumismo exacerbado em cima de um sistema do tipo extrai-produz-descarta precisa ser abolido das nossas vidas. Ele não é capaz de atender as demandas sociais gerando empregos e só está produzindo uma concentração de riqueza extrema, além da destruição perigosa da natureza. Esse fluxo linear econômico tem que ser substituído por um fluxo circular ecoeconômico, onde iremos mimetizar os mesmos mecanismos regenerativos da natureza. Ao invés de privilegiarmos o uso de recursos naturais finitos, como fertilizantes agrícolas, petróleo, metais, iremos privilegiar o uso de recursos renováveis, embora dois desses recursos são e sempre serão finitos: solo e água. Ao invés de privilegiarmos atividades extrativistas ou mineradoras, iremos adotar reciclagem, reutilização, redução do consumo material. Ao invés de darmos valor apenas para o tangível, como bens, iremos preferir serviços ou os intangíveis. Ao invés de usarmos as tecnologias para impactar mais o meio ambiente, iremos usá-las para desmaterializar o mundo, reduzindo consumo de papel por arquivos eletrônicos, reduzindo viagens por videoconferências, trocando escritórios por trabalhar em casa. Ao invés de transporte particular, iremos optar por vias públicas arborizadas sem carros e por transportes coletivos. Iremos cortar os excessos materiais na busca dos elos intangíveis. Por enquanto, os economistas só dão valor para uma árvore quando ela está derrubada no chão, quando ela vira uma tora. Se só uma tora tem valor, o que estamos esperando para destruir de uma vez a Amazônia? Está na hora do PIB capturar o valor dos estoques da natureza e descontar a exaustão dos recursos, está na hora de países importadores de recursos naturais começarem a considerar isso um passivo e não um ativo barato, ofertado infinitamente por países produtores como o Brasil e a custo sócioambiental zero. Além de todos esses ajustes no fluxo de consumo e produção e na nossa relação pessoal com os bens, com a matéria, com as pessoas, precisamos encarar a necessidade de viver em cima de estoques e não em cima de fluxos. O PIB é um fluxo submetido a um crescimento exponencial infinito, os economistas sequer olham os estoques e ano a ano adicionamos a esses estoques milhões e milhões de carros e casas, entre mil outras coisas, ocupando espaços que, uma vez degradados, deixam de reciclar o ar que respiramos, a água que bebemos, a biodiversidade e todos os serviços da natureza sem os quais não iremos sobreviver. Mudar o fluxo de consumo e produção, desmaterializando; redimensionar a economia, dar valor aos intangíveis, como medicina preventiva, e reconhecer limites vivendo dos estoques será o único caminho possível para a humanidade. E redistribuição de riqueza, fundamental, esse assunto tabu já foi extensamente discutido pela teoria neoliberal que é supostamente seguida por economistas sábios, que ignoram que foram os liberais clássicos que deram a formulação teórica do imposto sobre grandes fortunas. A história mostra que uma enorme concentração de riqueza, como a que estamos vivendo mundialmente hoje, é geralmente seguida de uma distribuição forçada. Ninguém tem interesse num colapso desses, nem os mais ricos, posto que todos nós fazemos parte de uma sociedade e tudo que temos deve-se a ela.
IBPS: Partindo da idéia de que nossa economia é escrava dos países ricos, o que você acha que seria necessário, no ponto que estamos , para que o sistema econômico brasileiro pudesse criar sua identidade própria, deixando de seguir padrões de nações desenvolvidas?
HP: Não acredito que a nossa economia seja escrava dos países ricos, pelo menos no sentido econômico, pois eu os vejo mais tirando da gente do que dando recursos, mesmo se eu quisesse ignorar a questão ambiental. A nossa economia e a de muitos países é escrava de uma ideologia que tem produzido resultados socioambientais assustadores, para dizer o mínimo, e que por ser uma ideologia, não é sequer questionada pelos intelectuais de plantão. Por exemplo, o México após entrar no NAFTA passou por uma estupenda dinamização da sua corrente de comércio, no entanto, o emprego absoluto desse país caiu após o acordo. A questão ambiental nem se fale. A ideologia dominante prega que a liberdade total aos indivíduos produz o máximo de bem estar social com o mínimo de esforço dos governos. No entanto, de acordo com os clássicos, isso é verdadeiro se e somente se todas as pessoas forem iguais. O mau uso dessa teoria é um outro erro, e por causa desse erro hoje nos Estados Unidos 1% da população detêm 73% das riquezas, de acordo com Kevin Philips, em seu livro ‘Wealth and Democracy’. A concentração de riqueza destroça a democracia, impede que os políticos trabalhem para mudar a matriz energética, para manter o sistema de saúde operante, para construir cisternas ao invés de transpor rios, e por aí vai. O Brasil precisa romper com o modelo econômico e salvar a sua natureza, cobrando pelo seu uso aqui dentro e fora e extraindo dela resultados socioambientais realmente sustentáveis. Essa adoração pelas exportações é injustificável, pois além de destroçar elos ambientais que irão afetar dezenas de milhões de brasileiros, não estão gerando resultados em criação de empregos de forma significativa. Pior ainda, qualquer virada na demanda externa e todos os parcos empregos do setor agro-exportador irão desaparecer, não estamos falando de empregabilidade permanente ou de solução de trabalho permanente em quase nenhuma esfera da economia, simplesmente porque a maior parte da força de trabalho que continuou empregada, apesar da tecnologia, está ligada a forças econômicas globais e não locais. Não se trata de explorar e estimular a criatividade individual, nem os negócios locais ou a economia local, e sim submeter todos a uma tirania da ideologia global, que nada tem trazido de benefício para ninguém, exceto a miséria, a submissão e o medo.
IBPS: Muitas vezes é através do caos que se encontra a possibilidade de uma nova ordem. Você acredita que este pensamento poderá servir para a questão ambiental?
HP: O caos que estamos falando pode ser definitivo. Eu acredito que já estamos vivendo o caos social e ambiental e só não o estamos enxergando, por uma manipulação total das nossas mentes. Se estivermos falando de um caos maior, talvez nada mais possa emergir daí, como na Ilha de Páscoa, com uma única diferença, agora a questão é global, sem necessariamente ter uma solução de continuidade. O caos já foi instaurado, nas cidades, na agricultura, no clima, nas guerras, na miséria humana. Está na hora de reconhecer a falência do sistema e tentar corrigir as suas mazelas. A solução passa por uma mão menos invisível dos governos, por uma regra tributária amigável ao meio ambiente, por um estímulo aos pequenos empresários, comerciantes, pela educação e desenvolvimento das aptidões individuais, por uma reformulação do ensino e das nossas mentes cuja palavra de ordem é crescer e enriquecer, embora isso não faça o menor sentido do ponto de vista coletivo. A questão ambiental faz parte de 100% das nossas vidas, embora cada um de nós a ignora também durante 100% das nossas vidas. É uma crise de valores, que já foi coroada com vários eventos extraordinariamente ruins, como a guerra do Iraque, por exemplo. Se essa crise vai ser coroada com uma mudança geral de atitude ou se vamos caminhar para o colapso, é algo que ainda não sabemos.
Hugo Ferraz Penteado é Economista-Chefe e Estrategista do ABN AMRO Asset Management desde 1998 e autor da obra “Ecoeconomia – Uma nova abordagem”. É pós-graduado em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Economia pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (IPE/USP). Atualmente, está se preparando para prestar doutorado em Economia, voltado para a análise das teorias de desenvolvimento ambientalmente sustentáveis. Datado: 18/10/2005
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A FUNDAÇÃO DO SUBJETIVO: O HÁBITO PARA ALÉM DA PSICOLOGIA Auterives Maciel Junior & Danilo Augusto Santos Melo
“A partir de nossas contemplações definem-se todos os nossos ritmos, nossas reservas, nossos tempos de reações, os mil entrelaçamentos, os presentes e as fadigas que nos compõem”DELEUZE, Diferença e repetição, p.138
Revista do Departamento de Psicologia - UFF, v. 18 - n. 2, p. 69-82, Jul./Dez. 2006
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